VIOXX:
ACERTO OU EXAGERO NA MEDIDA?
Marcos
Benchimol
A
comunidade médica, e o público em geral,
recebeu estarrecida a notícia da retirada do Vioxx
do mercado. O medicamento, que permitiu ao laboratório
Merck Sharp & Dohme faturar, em 2003, 2,5 bilhões
de dólares, aumenta, em seus usuários, o
risco relativo de eventos cardiovasculares como infarto
e acidente vascular encefálico. Este resultado
surgiu graças a um estudo (APPROVe -Adenomatous
Prevention Protection on Vioxx) que envolveu 2600 pacientes
para investigar se o Vioxx (Rofecoxibe) 25mg, utilizado
diariamente durante três anos, iria prevenir a recorrência
de adenomas colo-retais (lesões que potencialmente
podem degenerar-se em câncer). Os pacientes receberam,
continuamente, Vioxx 25 mg ou placebo e, após 18
meses, o grupo que recebeu o medicamento apresentou esta
complicação.
O resultado, de fato sério, motivou a retirada
do medicamento do mercado mundial, o que afetou o valor
das ações da MSD e causou espanto na população.
Afinal, o medicamento é amplamente utilizado para
uma infinidade de situações clínicas
com um adequado perfil de segurança, quando utilizado
por reduzido espaço de tempo e sob orientação
médica precisa. Várias indagações
se fazem necessárias perante tais achados científicos
e da intempestiva decisão da indústria de
sua imediata retirada do mercado. Sabemos que essa classe
de medicamentos (anti-inflamatórios não
hormonais) agem inibindo a produção de substâncias
inflamatórias (prostaglandinas) que, por sua vez,
se utilizadas em determinadas situações,
podem ter conseqüências desastrosas. Podem,
por exemplo, reduzir a proteção gástrica
e provocar gastrites, úlceras, hemorragias e mesmo
perfurações do tubo digestivo. Podem, também,
propiciar um toxicidade renal, diminuindo a taxa de filtração
renal, e, ainda, aumentar a pressão arterial.
A principal utilização desses medicamentos
na prática médica é no alívio
dos processos dolorosos resultantes de inflamações.
De pronto, observamos que o grupo que mais requer este
tipo de medicação é de idosos. Logo
estes, que freqüentemente apresentam vários
processos de agravo da saúde com hipertensão
arterial, cardiopatias e processos degenerativos ósteo-articulares
decorrentes do envelhcimento, tornam-se altamente vulneráveis
às graves complicações deste tipo
de tratamento. Infelizmente, observamos um processo de
envelhecimento pouco saudável, a partir de hábitos
de vida, fazendo com que ocorra uma demanda exagerada
dos profissionais de saúde. Como geralmente o "sistema"
pressiona os médicos à prescrição
farmacológica, é muito comum nossos velhinhos
saírem das consultas direto para a farmácia
com sua famigerada receita de um antiinflamatório.
Observo, estupefato, que muitos pacientes com processos
dolorosos crônicos, como artroses de joelho e quadril,
por exemplo, fazem uso de tais medicações
sem qualquer cerimônia, e o que é mais absurdo,
sob uso contínuo. Contudo, não podemos omitir
que tais medicações são realmente
eficazes e se utilizadas judiciosamente, e durante um
pequeno intervalo de tempo, os efeitos adversos são
escassos e, geralmente, bem tolerados.
Salta aos olhos que no APPROVe, a duração
do tratamento foi absurdamente elevada e as complicações
cardiovasculares começaram a aparecer somente após
18 meses de uso contínuo, o que não me parece
tão surpreendente. Não teria sido mais sensato
advertir no bulário, aos médicos e aos pacientes,
que na prescrição não se fizesse
uso contínuo desta droga? Afinal, todos os medicamentos
não têm possíveis efeitos adversos?
Por que não poder prescrevê-la em situações
clínicas pertinentes, sob curta duração,
uma vez que as complicações cardiovasculares
só ocorreram após 18 meses de uso?
Afinal, que situações clínicas requerem
duração tão prolongada de tais medicações?
Considerando-se, ainda, que tal medicamento representa
um grupo de drogas que compartilham mecanismo de ação
muito semelhante, dever-se-ão retirar do armamentário
as demais? O que não dizer dos antiinflamatórios
de primeira geração menos seletivos? Por
que ainda estão no mercado?
Acho que devemos ser mais sensatos e menos mercadológicos
e sensacionalistas. A prescrição médica
sempre deve ser bem fundamentada, por mais banal que possa
parecer, à primeira vista. A utilização
indiscriminada de medicações, a venda de
medicações muitas vezes orientada por balconistas
de farmácia deve ser fortemente combatida, tendo
em vista os possíveis riscos inerentes a qualquer
medicação. De outra parte, cabe também
refletir que não se deve "queimar" uma
poderosa medicação devido a um efeito adverso
não usual na prescrição habitual
por uma pura questão de "imagem". Sinceramente,
acho que o bom senso desta medida não prevaleceu.
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